de METAFORMOSE
Antes do Caos, da Terra, do Tártaro e de Eros, antes das potestades que pulsam nas Origens, tenebrosas potências do abismo primordial, antes que as dez mil valvulas abertas de Gaia parissem Gigantes, Titãs e Ciclopes, antes da guerra entre os monstros da noite e a lúcida força do dia, antes de tudo, filho de um rio e de uma ninfa da água, Narciso, o filho de Náiade, deitava de bruços e se olhava no trêmulo espelho da fonte, Narciso de olho em Narciso, beleza de olho em si mesma, cego, surdo e mudo aos apelos de Eco, a ninfa apaixonada, chamando Narciso, Narciso, a água da fonte repete o rosto de Narciso, reflexos de Narciso nos ecos da ninfa, água na água, como a luz na luz, luz dentro da água.
Esta lenda é a pedra de Sísifo, a pedra que Sísifo rola até o alto da montanha, e a pedra volta, sempre volta, penas de Hércules, trabalhos de Dédalo, labirintos, lembra que és pedra, Sísifo, e toda pedra em pó vai se transformar, e sobre esse pó, muitas lendas se edificarão.
E sobre Narciso, a profecia do feiticeiro Tirésias, será feliz enquanto não enxergar a própria imagem, a voz de Eco entre as árvores, o rosto de Narciso sobre a faca das águas.
O olhar de Narciso cai na água como Ícaro das alturas, e Ícaro cai na água, um ruído de púrpura que se rasga, Poseidon!, e afunda num coral de sereias.
Instante antes Ícaro voava, ao lado do pai, duas gaivotas sobre o Egeu, voava com as asas de cera criadas por Dédalo, o arquiteto do labirinto, o inventor de autômatos, o pai das coisas novas.
Voavam, pai e filho, fugindo de Creta, da ira do rei que os tinha aprisionado no labirinto construído por Dédalo.
Minos havia descoberto, seu arquiteto, o artesão incomparável, era cúmplice nos amores monstruosos da rainha Pasífae e do touro branco que Poseidon, senhor dos oceanos, tinha feito sair das ondas do mar. E foi que a rainha Pasífae ardeu de paixão pelo touro branco e quis ser penetrada por ele. Dédalo construiu um perfeito simulacro de vaca. Pasífae entrou, o touro aproximou-se, e assim se consumou o coito maldito da rainha e da grande besta.
Desta monstruosidade, nasceu o Minotauro, o híbrido com corpo de homem e cabeça de touro, em volta do qual Dédalo construiu o labirinto, a casa monstruosa para um ser monstruoso.
O olhar de Narciso volta, tonto de tanta beleza, pedra de Sísifo, queda de Ícaro, e torna a cair na água, rodas gerando rodas.
A água começa a ficar vermelha, sangue na água, sangue de Ícaro, sangue do Céu, Urano, filho da Terra, irmão dos Ciclopes, Urano, castrado por Cronos, o Tempo, seu filho, o Céu castrado pelo Tempo, os livres movimentos dos astros medidos por ampulhetas e clepsidras, o parricídio primordial, crepúsculo dos deuses.
Na água, agora sangue, bóiam o pênis e os testículos de Urano, cortados pela foice que Titéia, a Terra, deu ao filho Cronos para mutilar o pai.
Destes testículos cortados, ela nasceu, Afrodite, saída das espumas do mar, a beleza, o gozo, a paixão, a delícia, Eco que chama Narciso, Narciso, Pasífae transpassada pelo touro, Narciso apaixonado por Narciso, feliz enquanto não enxergar a sua imagem.
Agora o olhar de Narciso vê Teseu, é Teseu, o herói sedento de sangue, que entra no labirinto, a espada de bronze numa mão, na outra, o fio de Ariadne, a linha que serve de guia entre os indeslindáveis meandros da construção que o engenho de Dédalo enrolou e desenrolou. Mil olhos acesos, Teseu avança labirinto a dentro, a curta espada de bronze micênico na mão direita, vibrando como um pênis, enovelando no braço esquerdo o fio da princesa Ariadne, cada vez mais dentro, a treva mais espessa, o cheiro de esterco cada vez mais forte, Teseu avança em direção ao centro do seu coração, numa encruzilhada de caminhos, o herói hesita, então ouve o mais espantoso berro que orelhas humanas já escutaram. Narciso tapa os ouvidos, e deixa o olhar flutuar sobre as águas monótonas.
Tudo se cala. Narciso não ouve mais, nem o mugido do minotauro, nem os ecos da ninfa, Narciso, Narciso, Narciso, minotauro, minos, touro.
Teseu avança, coração sem medo, e a voz da ninfa Eco se repete entre as esquinas do labirinto, espatifando-se contra o mugido do Minotauro.
O herói dá um passo e se põe diante do monstro, em posição de combate.
Teseu olha, então, olha pela primeira vez, e o vê. E não acredita. O Minotauro tem sua cara. Teseu e o Minotauro são uma pessoa só.
Mal tem tempo de saltar de lado, quando a fera investe.
O Minotauro encosta-se na parede e atira-se sobre Teseu.
A espada afunda na garganta, o sangue jorra, o monstro vacila e desaba aos pés do herói.
Teseu levanta a espada, e a mergulha no coração do senhor do labirinto.
Ao morrer, o Minotauro chora como uma criança, por fim se enrosca como um feto, e se aquieta no definitivo da morte. Teseu limpa a espada no manto e sai, com uma morte na alma do tamanho da noite.
No espelho das águas, Narciso a reconhece, a dos cabelos de serpente, Medusa, a que transforma em pedra todo aquele que a fitar. Olho na água, Narciso não corre perigo, e a Medusa passa, armada da força de ver e ser vista. A próxima vez, quem sabe.
Começa a fazer frio, o vento do entardecer vai apagando a luz do dia, as sombras saem debaixo das folhas, das pedras, do coração do mato.
O rosto de Narciso vai escurecendo na água, onde logo brilham estrelas.
Ao longe, a voz de Eco, Narciso, Narciso, repete como se sangrasse.
Na água, as estrelas, a Ursa Maior, os signos, as constelações, as luzes cegas onde o arbítrio dos homens julga ver formas, perfis, silhuetas, formas deste mundo projetadas no azul celeste onde o azul mais azul das estrelas lateja, os pontos onde o azul do céu dói mais.
Aquário, o aguadeiro, Ganimedes, o amado de Júpiter, o signo dos videntes e visionários, o signo de Tirésias, feliz enquanto não enxergar a própria imagem. Ainda bem que Tirésias é cego.
Nadam dois peixes na água celestial, cada um para um lado. O Carneiro. Os Gêmeos. O Caranguejo. O Leão. A Virgem. A Balança. O Escorpião. O Centauro Flecheiro. A Cabra Marinha. E Aquário, o aguadeiro. E o círculo rodando uma história sem fim, o eterno retorno, o dia, a noite, a vida, o eco, os doze signos, os doze trabalhos do herói.
A tudo Narciso está atento, ao sonho que faz de uma cabeça e peitos de mulher, asas de pássaro e corpo de leão, uma esfinge e de um tronco de cavalo e um torso de homem, um centauro, o ser, esse sonho de metamorfoses.
Esta noite, nada permanece em seu ser, os seres padecem as dores do parto das mais improváveis alterações.
Não há ser, tudo é mudança, ecos, revérberos, câmbios perpétuos.
Tudo pode se transmutar em tudo.
Assim, sob a forma de um cisne, a ave de pênis grande, Zeus quis Leda, a princesa de belas coxas. Como chuva de ouro, choveu no colo de Dânae. Assumindo a forma do marido, deixou Alcmene prenhe de Hércules, o herói trabalhador, o deus que sofre, num mundo de monstros e prodígios.
Narciso começa a sofrer.
A pedra de Sísifo é a sede de Tântalo, a sede infinita da boca que nunca consegue tocar na água, e a pedra que sempre rola ao chegar no alto da montanha, a eterna sede da imagem que nunca consegue senão se transformar em imagem. Teseu, novo Minotauro, agora habita as profundezas do labirinto, entre muralhas micênicas e o cheiro de esterco, a fera sem deus, a fome é um deus, a sede é um deus.
A sombra da Medusa escorre pelas escadarias do palácio de Minos, em Cnossos, transformando todos os deuses em estátuas de pedra.
Em algum lugar da Ásia, a noite gera um novo Teseu.
Palavras da Pítia, feliz enquanto não enxergar seu próprio rosto. Todo diverso em idêntico se converta, toda a diferença consigo mesma coincida.
Palavras da Pítia, palavra de Apolo, o arqueiro implacável, o que sabe de ontem, o que sabe de hoje, quem sabe de amanhã.
Amanhã, Narciso, é um outro dia. Todos os dias são assim, sagradas todas as árvores que o raio, fálus, de Zeus tocou.
Narciso de olho nas águas, passam as naves de Ulisses, com destino ao espanto, ao susto máximo, ao ceticismo, à apatia, à amnésia.
Quem duvida de tudo se chama cético. Como se chamam aqueles que acreditam em tudo? Aqueles que acreditam que tudo é possível? Que toda a fantasmagoria tem tanto direito a existir quanto a sólida certeza do gosto do pão e a indeterminada realidade da água que escorre no rosto dos sedentos quando chove?
Água, sangue, vinho: que deus escondeu na uva o vento louco da embriaguez?
Tudo no Caos, tudo na Terra, tudo no Tártaro, a tudo, Eros aproxima e mistura, simulacros e metáforas, mímica e espetáculos, quantos séculos levam meus ecos para atravessar o labirinto?
A razão, Atena, é apenas uma dor na cabeça de Zeus.
Como quando uma história tem dois finais, como quando uma história tem vários começos, como quando uma história conta uma outra história: fugindo de Minos e do labirinto, Dédalo, o artesão incomparável, o inventor dos inventores, foi dar às costas da Sicília, nas praias do rei Cócalo. Para Cócalo, o incomparável artesão arquitetou uma sala do trono onde se podia ver sem ser visto, ouvir sem ser ouvido e estar quando ausente. Minos, senhor do mar, veio reclamar seu prisioneiro. Temeroso, Cócalo lançou Dédalo num forno, onde morreu assado. Como conciliar este final com o vôo de Dédalo e Ícaro, do labirinto para a liberdade? Ou Dédalo teria sido morto depois da queda de Ícaro? Ou o cisne que possuiu Leda era apenas a metáfora de uma nave de velas brancas, uma nave, uma ave? Ou a imagem de Narciso é o rosto de um transeunte estranho? Toda fonte é uma moça bonita que foi amada por um deus, que disse não a um rio, que fugiu de um sátiro, nada é real, nada é apenas isso, tudo é transformação, todo traçado de constelação é o pedaço de um esboço de um drama terrestre, tudo vibra de tanto significar. Que é uma esfinge, uma quimera, uma medusa, uma górgona, comparada com um pai que mata os filhos e serve sua carne ao Pai dos Deuses? Última água, esta fonte é tudo que restou do dilúvio. Fatos não se explicam com fatos, fatos se explicam com fábulas. A fábula é o desabrochar da estrutura, arquétipo em flor. Uns são transformados em flores, outros são transformados em pedra, outros ainda, se transformam em estrelas e constelações. Nada com seu ser se conforma. Toda transformação exige uma explicação. O ser, sim, é inexplicável. Uns se transformam em feras, outros são mudados em lobos, em aves, em pombos, em árvore, em fonte. Só a ninfa Eco se transformou em sua própria voz. Em que língua falar com um eco? Uma uma língua língua lembra lembra uma uma lenda lenda, Narciso, Narciso Narciso. Que é um ciclope comparado com a história de um príncipe que matou o pai e casou com a própria mãe? Qual é o animal que de manhã anda de quatro patas, à tarde anda com duas e à noite anda com três? Consultem a Sibila, ouçam a pitonisa, leiam sinais nos céus, no movimento das águas, Narciso. O adivinho Tirésias tinha dito a Laio, rei de Tebas, vejo horrores, vejo trevas, terás um filho que vai te matar e casar com a rainha, sua mãe. Que horror a este horror se compara? Velho Tirésias cego, vítima e servidor de Apolo, deus luminoso, que dá o dom de adivinhação, senhor dos três tempos, deus que tudo vê, tudo acompanha, tudo sabe. Laio põe o menino Édipo dentro de uma caixa e a solta na correnteza do Nilo. A caixa com o menino vai dar numa praia, onde a encontra uma loba. Outros dizem pastores. Édipo o príncipe oculto, ignorante de sua origem, cresce, robusto, entre pastores. Um dia, decide ir a Tebas, a grande cidade, a cidade onde mora o grande rei. Édipo começa a realizar seu destino, o desejo da Moira, do fado, da fortuna, das potências cegas do acaso que tudo regem na terra e nos céus, na vida dos deuses e na vida dos homens, reflexo da ordem suprema. O rei Laio viajava incógnito pela estrada que sai de Tebas. Cruza com o pastor, desentende-se com ele, lutam, a juventude de Édipo prevalece, Édipo deixa para os abutres o cadáver do pai, a garganta aberta, por onde escorre sangue. A notícia chega rápido à cidade, a rainha Jocasta está viúva. Viajando incógnito, o rei foi morto por um desconhecido. A cidade está amaldiçoada. Na estrada que sai da cidade, um monstro, a Esfinge, cabeça e peitos de mulher, asas de pássaro, corpo e patas de leão, submete todos os passantes a uma pergunta, um enigma, decifra-me ou te devoro. Centenas de tebanos tinha devorado, ninguém mais se atrevia a sair da cidade. Édipo resolve enfrentar a Esfinge, o monstro interrogador, o monstro-pergunta, o proponente, o primeiro filósofo, o ser questionário.
[...] Que é um eco senão a transformação de uma voz em pedra, no eternamente idêntico a si mesmo, como fazem as letras do alfabeto, inventadas por aquele Cadmo, filho de Agenor, rei da Fenícia, e da rainha Telefasse? Cadmo, o protegido de Palas Atena, o herói que vem do Oriente para encontrar a irmã, Europa, raptada por Zeus sob a forma de um touro e matar o dragão? Inspiração da deusa, arranca os dentes do dragão e os semeia. Dos dentes, brotam guerreiros furiosos que atacam o herói. Cadmo consegue que se destruam entre si. Letras do alfabeto, dentes do dragão, vindas da Ásia, o aleph, o beit, o gama, delta, zaleth, sementes, poeiras de sons, átomos soltos, épsilon, dzeta, yod, ômega. Que diriam os Sete Sábios dos Doze Trabalhos de Hércules? Cada um tem significado preciso, como a cabeça da Medusa no escuro da deusa Atena. Omnia mecum porto, tudo o que é meu carrego comigo. Ninguém vê meu rosto e continua vivo, diz o Senhor, diz a Medusa. Por que nos moldou do barro o Titã Prometeu? Por que roubou para nós o fogo de Zeus? Ontem, estava tentando interpretar a guerra de Tróia, o significado de Ulisses, de Agamenon, o rapto de Helena, a ira de Aquiles, a loucura de Ajax, o cavalo de madeira, que coisa querem dizer essas histórias, nós górdios do lembrado e do esquecido? Aterra pensar que não são histórias, não são portadoras de um sentido recôndito. Só o mais fantástico jamais aconteceu. Tudo aconteceu. Tudo aquilo aconteceu. Pelos cem olhos de Argos tudo aquilo. Zeus quis a filha de Ínaco, rei e rio, Io, sacerdotisa de Hera, Io a transformada em novilha, guardada por Argos de cem olhos, cinqüenta abertos, enquanto os outros cinqüenta dormiam. Quem para fazê-los todos fechar senão o deus astuto, Hermes, senhor das estratégias e falcatruas? Argos, cem olhos, O, Argos, cem olhos, O, o, o, Argos, O, O, O, olhos. Que significam fábulas, além do prazer de fabular? Amor é aquilo que subsiste mesmo depois de você dizer, não te amo mais. Num sonho, sonhei, viver tudo em espelho. Se espelho existe, ser não existe. Esta fonte é uma fossa, esgoto, lixo, cloaca de mitos. Mitos mortos fedem, o cheiro dos reis mortos, deuses mortos, rios estrangulados por Hércules. Este mito está morto e sobre este mito morto construirei o novo mito. Déia, idéia. Erra uma vez. Durar, o maior dos milagres.
— Paulo Leminski —
Posted by Katia at March 31, 2006