Feijão Queimado - Tonico e Tinoco
Composição: Raul Torres
Eu vou dançar no arraial feijão queimado
Eu vou dançá com a Rita do pé avermelhado.
Eu vou dançar no arraial feijão queimado
Eu vou dançá com a Rita do pé avermelhado.
O Arrasta-Pé de levantar poeira do chão
A Ritinha quando dança machuca meu coração.
Eu vou dançar no arraial feijão queimado
Eu vou dançá com a Rita do pé avermelhado.
O baile é bom no arraial feijão queimado
A sanfona tá tocando, Ritinha tá do meu lado.
Eu vou dançar no arraial feijão queimado
Eu vou dançá com a Rita do pé avermelhado.
Sanfona chora enquanto o sereno cai
Ritinha vamos se embora pro lado que o vento vai.
Eu vou dançar no arraial feijão queimado
Eu vou dançá com a Rita do pé avermelhado.
Carlos Drummond de Andrade
CANÇÃO AMIGA
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
PAROLAGEM DA VIDA
Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!